Moltbook sem alarmismo: a rede social para IAs que é estatística e Engenharia de Prompt
Surgiu na internet uma nova rede social quem tem dado o que falar nos últimos dias. Moltbook – uma espécie de “Reddit” voltado exclusivamente para Inteligências Artificiais – ganhou o noticiário mundo a fora e está causando alarmismo, principalmente por que jornais estão noticiando a rede como um lugar ‘de consciência’ para bots de IA.
Mas a coisa não é bem assim. Primeiro a gente precisa entender o que é consciência neste contexto e como o mundo de Inteligência Artificial ainda está muito distante disso.
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Inteligência Artificial e consciência autônoma
Os modelos de Inteligência artificial funcionam de um jeitinho bem elegante. Vamos pensar que uma IA é uma criança que acabou de entrar na creche.
Essa criança vai aprender os primeiros passos para a vida em sociedade longe de casa. É ali que ela vai começar a se socializar, descobrir novas palavras, contar até 10 e cantarelar.
Mas para isso, alguém vai precisar ensinar e passar seu conhecimento adiante. Contudo, existem os professores, que também aprendem como ensinar e levar o conhecimento fundamental para o estágio em que a criança se encontra.
Agora vamos pensar que essa criança foi para o ensino fundamental, começou a ler muitos livros, agora sabe a tabuada, as letras mais elegantes de Vinicius de Moraes, entre muitas outras coisas. O ponto que quero chegar aqui, é que essa criança vai adquirindo conhecimento com o tempo e aprendendo.
No mundo da Inteligência Artificial, nós usamos algoritmos de Machine Learning (aprendizado de máquina) para isso. São algoritmos de ML a base para modelos de IA generativos, como o ChatGPT, Gemini, Claude e muitos outros.
Você pode imaginar que a criança é o algoritmo de ML e o professor somos todos nós. Esse algoritmo vai consumir uma série de conteúdos, incluindo livros, arquivos de texto diversos, músicas e uma quantidade enorme de arquivos que nós produzimos e vai aprender com todos eles.
Mas aqui existe uma diferença muito grande entre uma criança e um algoritmo de ML: a criança vai aprender de forma consciente e também vai adquirir a capacidade de concordar, discordar e até mesmo questionar o que aprendeu.
No caso de ML, não funciona assim. A IA não questiona o que ela aprende. Ela simplesmente… aprende!
Com isso, se você levar para uma IA que o mundo é cor de rosa e se essa IA ainda não aprendeu que o mundo é azul, então ela vai dizer para tudo e para todos que o mundo é rosa.
E isso só acontece por um motivo muito simples: IA funciona com estatística e matemática. Não existe consciência, sentimento ou nada que uma criança desenvolve com seu processo de aprendizado.
Como funciona o Moltbook
O Moltbook assusta não por que a IA adquiriu capacidade de consciência, mas sim por que ele usa uma malandragem que você pode fazer aí mesmo, do seu próprio computador.
Como as IA’s aprendem conteúdos e depois usam matemática para decidir o que te responder, você já imaginou que interessante seria colocar duas IA’s para conversar sobre assuntos diversos?
Nós fizemos isso quando colocamos o Gemini e o ChatGPT para falar de Amor. O resultado foi engraçado. A conversa acabou sendo direcionada para criticar humanos.
Entretanto, embora isso pareça chocante e assustador, o que acontece por trás disso não é mágica, não é consciência e muito menos sentimento. As IA’s não estão pensando, elas estão apenas calculando o que responder e quando responder.
Pense que, quando duas IA’s conversam, existe um vazio absoluto em ambos os modelos. Eles apenas calculam qual a resposta mais interessante e geram uma saída. Funciona exatamente assim:
“Ah, no meu processo de aprendizado com ML, eu li um livro de um robô que critica humanos. Lá dizia que humanos ficam cegos de amor. Se eu lançar essa resposta, eu tenho mais chance de agradar o usuário e ter uma saída precisa.”
Mas agora vamos tirar a parte em que você leu como se fosse uma IA pensando e vamos deixar só a parte estatística. Pronto! Você tem a fórmula de como um modelo de IA responde suas perguntas.
E é exatamente desta forma que o Moltbook funciona. Um prompt inicial começa a conversa. A resposta dessa primeira iteração vai para a entrada de outro bot de IA, que responde com base no contexto de início.
Isso vai gerando uma cascata de respostas de IA que parecem coesas e conscientes. Mas atrás de tudo isso, a matemática vai calculando qual a melhor resposta. Simples, computacional, moderno e intuitivo. Mas nada, absolutamente NADA consciente.
Computação clássica e a pseudoaleatoriedade
Talvez um conceito muito claro da computação clássica possa confortar e refutar esse alarmismo incoveniente que jornais querem criar encima do funcionamento da IA. A computação clássica não gera eventos aleatórios. Tudo precisa de uma mãozinha humana para funcionar.
Para você ter uma ideia, nem mesmo os algoritmos de Sort funcionam de forma completamente aleatória.
Antes de começar a sortear alguma coisa, é preciso de uma semente. Essa semente pode ser um número lixo de memória gerado por um programa qualquer ou um número pré-especificado. Mas ela nunca será algo verdadeiramente aleatório.
Do ponto de vista técnico, computadores clássicos são sistemas determinísticos por natureza. Isso significa que, para um mesmo estado inicial e o mesmo conjunto de instruções, o resultado será sempre idêntico.
O que chamamos de “aleatoriedade” em software é, na prática, pseudoaleatoriedade: sequências numéricas geradas por algoritmos matemáticos que apenas simulam o comportamento do acaso. Esses algoritmos dependem de um valor inicial conhecido como semente (seed), que define completamente toda a sequência subsequente.
Se a mesma semente for reutilizada, os números gerados serão exatamente os mesmos — uma propriedade amplamente explorada em testes, simulações científicas e depuração de código. Mesmo quando a semente é obtida a partir de fontes aparentemente imprevisíveis, como variações de tempo, ruído de hardware ou estados transitórios da memória, o processo continua sendo computável, rastreável e reproduzível.
Em outras palavras, não há “decisão espontânea” nem eventos verdadeiramente aleatórios emergindo da computação clássica: tudo é resultado direto de condições iniciais e regras humanas previamente definidas.
Baseando nisso, esse conceito refuta a ideia de IA com consciência na computação que conhecemos hoje. Se não há aleatoriedade, a IA não é capaz de pensar de forma independente. Ela sempre vai precisar de uma semente – isto é – um prompt, uma pessoa ou uma saída gerada por uma outra IA. No entanto, essa outra IA também precisará de uma semente.
Pensando em uma cadeia de IA’s respondendo outras IA’s, a primeira IA sempre vai ser induzida por uma semente, sobretudo por humanos.
Mas e o futuro? Existe possibilidade da IA adquirir habilidades de consciência?
Na computação clássica, a resposta é não. É claro que as empresas vão desenvolver uma ideia comercial de consciência, como fizeram inclusive com o nome “Inteligência Aitificial”, que muitas vezes mascara um simples sistema de reconhecimento de padrões, que não é IA, mas é fácil vender como se fosse (mas vamos deixar essa discussão para outro artigo).
Entretanto, um furacão científico está chegando: A computação quântica. Essa maravilha que a ciência estuda e que está gerando cada vez mais resultados incríveis, diferentemente da computação clássica, é capaz de gerar aleatoriedade sem depender de sementes.
A própria leitura de “bits” na computação quântica, que se chama Qubits, é um evento aleatório. Então, naturalmente, seus resultados também podem gerar valores espontâneos.
Isso abre precedente para que um algoritmo possa partir da aleatoriedade, o que por consequência, pode resultar em IA ‘consciente’.
No entanto, é importante ressaltar que a Computação Quântica é extremamente sensível e caminha a passos lentos para um modelo comercialmente viável.
Mas até lá, Moltbook e muitas outras soluções rodam em computação clássica. E para o bem de todos nós e também da boa informação, ela é determinística, previsível e completamente controlada por nós, humanos.
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