Inteligência artificial do Claude falha em criar antídoto de escorpião; entenda os motivos
Experimento da Citrini com Claude tentou criar antídoto de escorpião, mas só achou proteínas ligantes. Especialistas dizem que hype é prematuro.

Nos últimos dias, um experimento envolvendo a inteligência artificial Claude, da Anthropic, gerou manchetes ao sugerir que a IA poderia criar um antídoto de escorpião. A realidade, porém, é bem menos empolgante: o sistema não criou um medicamento funcional. O que houve foi um processo automatizado de busca por proteínas que se ligam às toxinas do veneno – e especialistas alertam que transformar isso em um tratamento real é um caminho longo e incerto.
Resumo
- Claude gerou 320 mil candidatos a proteínas, mas apenas 17 se ligaram a toxinas.
- Especialistas afirmam que transformar esses resultados em um medicamento funcional é um desafio.
- O experimento custou quase US$ 200 mil (cerca de R$ 1 milhão) e foi conduzido por uma firma de investimentos.
- A Citrini declarou sucesso, mas não levou a pesquisa adiante para um tratamento real.
O experimento foi conduzido pela Citrini Research, uma firma de pesquisa de investimentos, em parceria com a Anthropic. A Citrini admitiu que ninguém na equipe entendia de biologia, mas mesmo assim escreveu um prompt de 35 páginas e deixou o Claude trabalhar por 64 horas. O resultado: 320 mil candidatos a proteínas, filtrados para 211, dos quais 17 se ligaram a toxinas. O custo? Quase US$ 200 mil (cerca de R$ 1 milhão) – US$ 50 mil (cerca de R$ 251.385) em computação pagos pela Anthropic e US$ 150 mil (cerca de R$ 754.155) em testes externos.
O experimento da Citrini com Claude
A Citrini não é uma empresa de biotecnologia, e sim uma firma de investimentos – a mesma que publicou uma ficção sobre uma catástrofe econômica causada por IA que mexeu com mercados reais. Para o experimento com Claude, a empresa contou com a ajuda da Anthropic, que está próxima de seu IPO e tem interesse em mostrar o potencial da IA na descoberta de medicamentos. A Anthropic concordou em remover as proteções de biossegurança do modelo e bancou a conta de computação, que chegou a US$ 50 mil (cerca de R$ 251.385).
US$ 200 mil (cerca de R…
custo total do experimento
Fonte: Citrini Research
A dupla escolheu o escorpião porque o tratamento atual é caro e difícil de produzir (envolve injetar veneno em cavalos). Claude gerou cerca de 320 mil designs de proteínas, que foram reduzidos a 211 após descartar os que se pareciam com toxinas ou proteínas existentes. O processo levou 64 horas. Em seu relato oficial, a Anthropic foi mais sóbria do que a Citrini.
Enquanto isso, o mercado de IA se movimenta: a OpenAI quebrou a exclusividade com a Microsoft e levou o GPT-6 para o Google Cloud, mostrando que a competição está acirrada.
O que os especialistas disseram
Os 17 candidatos que se ligaram às toxinas foram celebrados pela Citrini como um sucesso. Mas especialistas ouvidos pelo The Verge não compartilham do entusiasmo. Andreas Hougaard Laustsen-Kiel, professor de tecnologias de anticorpos na Universidade Técnica da Dinamarca (DTU), afirmou: “É relativamente fácil descobrir um bom ligante contra toxinas de cobras e escorpiões. A parte difícil é transformar isso em um medicamento.”
Melisa Benard Valle, professora assistente, e Anne Ljungars, pesquisadora sênior, ambas na DTU, escreveram em conjunto: “Os resultados são tecnicamente promissores, mas parte do entusiasmo é prematura”. Elas classificaram as descobertas como “longe de um medicamento e hipadas”. Andreas Bender, professor de aprendizado de máquina em medicina na Universidade Khalifa, em Abu Dhabi, completou: “Métodos existentes como triagem de alto rendimento já encontram múltiplos acertos com custo gerenciável, mesmo sem IA. O verdadeiro desafio é transformar esses resultados em tratamentos que funcionem em sistemas vivos. É exatamente essa tradução que falta.”
O hype da IA na descoberta de medicamentos
A Citrini, no entanto, declarou o experimento um sucesso, argumentando que ele oferece um vislumbre das oportunidades de investimento na era da descoberta de medicamentos impulsionada por IA. A firma não levou a pesquisa adiante e, quando questionada por críticos, respondeu: “Não vamos matar um cavalo morto, mas somos uma firma de pesquisa de investimentos, não uma startup de biotecnologia.”
Por trás do experimento, a Citrini recomendou ações de empresas do setor de testes farmacêuticos para seus assinantes pagantes, conforme reportou a Bloomberg. A firma ainda descreveu a parte de IA como “gratuita”, ignorando os US$ 50 mil (cerca de R$ 251.385) pagos pela Anthropic.
No Brasil, o escorpionismo é um problema de saúde pública em diversas regiões. Um antídoto de baixo custo teria grande impacto, mas o experimento da Citrini está longe de oferecer uma solução. O caso serve como alerta: a IA pode acelerar a descoberta, mas o caminho até um medicamento seguro e eficaz continua sendo longo e caro.
📲 Para ficar por dentro dos próximos capítulos dessa história e não perder nenhum desdobramento sobre IA e saúde, entre no Canal do TS no WhatsApp.
O experimento da Citrini com Claude mostrou que a IA tem potencial para ajudar na fase inicial de descoberta de candidatos a medicamentos. Mas transformar uma proteína que se liga a uma toxina em um tratamento que salva vidas é um salto que ainda estamos longe de dar – e que exige muito mais do que um prompt bem escrito.
Valores em reais convertidos pela cotação de fechamento do Banco Central de 21/10/2026 (US$ 1 = R$ 5,03). Conversão direta, sem impostos nem taxas de importação.
Fonte: The Verge
Escrito por




